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Bruma sobre o mar, trama sobre a pele

Bruma sobre o mar, trama sobre a pele

Bruma sobre o mar, trama sobre a pele reúne Mariana Perissinotto e Naomi Shida em uma exposição da EXL Galeria com a Mono Lisboa. Nas pinturas de Mariana, camadas de tinta e abrasão aproximam corpo e paisagem, preservando vestígios. Naomi articula tecidos, fibras e tintas em corpos híbridos, atravessados pelo naufrágio, pela transgeneridade e pela sobrevivência. Entre bruma e trama, as obras tratam de memória, vulnerabilidade e mudança, conservando marcas do percurso em novas formas de presença.

Período:
2 de outubro de 2026 a 17 de outubro de 2026
Situação:
Em andamento
Local:
Mono Lisboa - R. Feio Terenas 31A, 1170-176 Lisboa, Portugal.

Visitação

Sobre a exposição

As obras de Mariana Perissinotto e Naomi Shida reunidas nesta exposição, organizada em parceria com a EXL Galeria e a Mono Lisboa, são aproximadas por um campo comum de investigação: o corpo feminino como superfície atravessada pela memória e submetida a processos contínuos de transformação. Nas duas produções, a figura humana deixa de ocupar uma posição estável. Encontra-se diante da paisagem, imersa na água, fragmentada pela lembrança, recoberta por outros organismos ou reconstruída por meio de tecidos, linhas, anzóis e camadas de tinta. O que permanece de um corpo depois de uma experiência de ruptura? De que maneira a matéria pode registrar aquilo que desapareceu? Como representar mudanças que atingem a pele, a percepção de si e os lugares ocupados socialmente? Na produção de Mariana Perissinotto, a pintura a óleo constitui o campo a partir do qual essas questões são elaboradas. Suas imagens partem frequentemente de experiências observadas ou vividas, posteriormente submetidas a um processo lento de maturação no ateliê. A lembrança das cenas, os estudos de paisagem e as referências corporais oferecem uma estrutura inicial, embora a pintura se afaste gradualmente do registro documental. Esse afastamento ocorre também pela construção e pelo desgaste sucessivo da superfície. Mariana acrescenta camadas de tinta e lixa a tela, procedimento recorrente em sua prática. A abrasão modifica a saturação das cores, desfaz contornos e aproxima a figuração da abstração. A imagem forma-se sem depender da precisão da linha, adquirindo, em algumas passagens, a aparência difusa de uma bruma. O lixamento participa, assim, da própria construção pictórica e confere materialidade à passagem do tempo. As figuras representadas por Mariana parecem habitar instantes que permanecem suspensos. Abraço apresenta dois corpos compartilhando a intimidade de um espaço escuro. O gesto de proximidade é construído com contenção, afastado de uma narrativa sentimental explícita. A pintura concentra-se na presença física e na vulnerabilidade implicada na relação entre os corpos. A escala próxima ao tamanho humano intensifica essa presença em Figura sentada. A personagem existe diante do público sem assumir uma postura de oferta ou retraimento. Sua nudez adquire a condição de um estado corporal, relacionado à permanência e à experiência de simplesmente ocupar um espaço. A suspensão temporal atravessa também Jardim, Banhistas e Verão. Os acontecimentos parecem transcorrer em um tempo próprio, paralelo ao tempo do observador. As pessoas retratadas permanecem concentradas em seus gestos e alheias à presença de quem olha. O público ocupa a posição de testemunha de cenas que já estavam em curso e que parecem continuar existindo para além de sua observação. A relação entre figura e paisagem adquire especial relevância em Banhistas. Os corpos estão inseridos em um ambiente cuja atmosfera escura se distancia da luminosidade convencionalmente associada às cenas de banho. A experiência cotidiana é reorganizada pela pintura, fazendo com que uma situação reconhecível adquira certo estranhamento. Verão, por sua vez, aproxima o corpo de uma temporalidade mais distendida, associada ao repouso e à possibilidade de permanecer em um espaço sem que uma ação central determine o sentido da cena. As personagens estão imersas em seu próprio cotidiano, enquanto o observador acompanha de fora uma experiência da qual não participa inteiramente. A água constitui um dos elementos recorrentes dessa produção. Sua superfície cria passagens entre visibilidade e ocultamento, figuração e abstração. Em algumas telas, impede o acesso ao que está abaixo e produz uma percepção de profundidade e desconhecimento. Em outras, converte-se em espelho instável, capaz de distorcer aquilo que reflete. Mais do que elemento da paisagem, a água participa da construção emocional e temporal das imagens. A referência ao mito de Narciso é deslocada em Espelho por uma composição monocromática que retira a figura do campo naturalista. O verde atravessa o corpo e o ambiente, estabelecendo uma continuidade entre sujeito, reflexo e espaço. Já O barco sugere deslocamento por meio da presença da embarcação e da paisagem aquática. A viagem permanece envolta em ambiguidade, pois não se identifica com segurança um ponto de origem ou destino. O barco torna-se uma estrutura provisória diante da instabilidade do espaço que o circunda. O deslocamento reaparece em Partida, trabalho que assinala uma transformação na pesquisa de Mariana. A figura posicionada diante do espaço pictórico parece atravessar uma fronteira entre aquilo que conhece e o que ainda não pode visualizar. A temporalidade da obra constrói-se nessa tensão: o passado permanece disponível como experiência, enquanto o futuro surge como campo opaco, alcançado somente pelo movimento. O procedimento técnico do lixamento adquire especial evidência em Caminho, embora percorra de maneira recorrente a produção da artista. Mariana trabalha a tela por meio da sobreposição de camadas de tinta e de sua posterior abrasão. Esse processo permite que a imagem se forme sem uma definição rígida da linha e que diferentes momentos de sua elaboração permaneçam inscritos na superfície. O desgaste modifica a saturação das cores, desfaz contornos e compromete intencionalmente a nitidez da representação. Cada camada removida revela algo que esteve encoberto, ao mesmo tempo que dificulta sua apreensão integral. A tela conserva, desse modo, os vestígios de seus diferentes estados. Duas silhuetas surgem em Caminho a partir desse desgaste físico da tinta. As figuras assumem a condição de aparições descontínuas, semelhantes às lembranças que retornam por fragmentos e cuja definição se modifica ao longo do tempo. A memória ultrapassa o tema representado e se converte em operação técnica: está presente no acúmulo das camadas, na força empregada para removê-las e nos resíduos que resistem ao apagamento. Enquanto Mariana trabalha com a sedimentação e o desgaste da imagem, Naomi Shida constrói corpos por meio da montagem, da costura e da associação entre materiais de origens diversas. Lona, algodão, organza, tule, couro de tilápia, miçangas, anzóis, estruturas metálicas e formas modeladas em cerâmica fria constituem superfícies híbridas. O corpo surge como matéria permeável, capaz de incorporar elementos exteriores e de continuar existindo por meio de novas configurações. A simbologia marinha ocupa uma posição central nessa produção. O mar aparece como espaço enigmático e de transformação radical. O naufrágio, em vez de representar somente o fim, marca a passagem entre diferentes modos de existência. Aquilo que submerge perde sua forma anterior, entra em contato com outros organismos e retorna modificado. Destruição e reconstrução tornam-se partes de um mesmo processo. A instalação Naufrágio, em águas rasas encontro os destroços de um tempo reúne viveiros de arame, anzóis e estruturas têxteis. O conjunto evoca fragmentos encontrados depois de um período de submersão. As águas rasas permitem que os destroços sejam vistos, embora já estejam transformados pelo contato com o ambiente marinho. Aquilo que retorna à superfície conserva vestígios de uma história e apresenta os sinais de sua permanência em outro estado. Essa transformação alcança os objetos da série No Mar, Tudo é Corpo. Nos trabalhos Mar-morto-corpo I–VI, banquetas deixam de desempenhar exclusivamente sua função cotidiana e passam a constituir estruturas suspensas, entrelaçadas por tecidos, miçangas e formas que remetem a organismos marinhos. O objeto torna-se suporte para outros corpos, enquanto sua identidade original permanece parcialmente reconhecível. A presença de incrustações semelhantes às cracas reforça o caráter ambivalente desses trabalhos. Organismos muitas vezes percebidos como invasores participam de ecossistemas complexos e estabelecem relações de dependência com as superfícies que ocupam. Nas obras de Naomi, a fusão entre diferentes matérias produz corpos que já não podem ser separados sem que sua nova existência seja desfeita. Transformar-se significa, nesse contexto, coabitar. A série Peles suspensas por sonhos em vão torna essa relação ainda mais direta ao utilizar couro de tilápia como suporte para bordados e composições com anzóis. A pele deixa de ser apenas uma representação e passa a integrar materialmente a obra. As imagens de O urubu, A cadeira, O autorretrato, A banqueta e Brasil são bordadas sobre uma superfície orgânica, marcada por sua procedência animal e por sua transformação técnica. Referências pessoais, objetos cotidianos e questões sociais passam a compartilhar uma mesma pele. A escolha da tilápia reúne diferentes ambiguidades. Trata-se de uma espécie introduzida em ecossistemas brasileiros, com impactos sobre a biodiversidade, e amplamente aceita por seu valor alimentar. Sua pele, geralmente descartada, torna-se matéria artística. A passagem do rejeitado ao incorporado aproxima-se das reflexões de Naomi sobre corpos dissidentes, submetidos à violência e à exclusão enquanto suas imagens, experiências e desejos são consumidos pela mesma sociedade que os marginaliza. Os anzóis presentes nessas obras também carregam sentidos contraditórios. Podem prender, perfurar e provocar a morte, ao mesmo tempo que conectam partes da composição. Funcionam como ameaça e elemento estrutural. A costura apresenta uma ambivalência semelhante. O fio aproxima fragmentos e permite a construção de outras formas, embora a união permaneça visível. Cada ponto conserva a memória da separação que tornou o reparo necessário. Carne abissal condensa parte dessa pesquisa em uma forma estreita, alongada e suspensa. Tecidos, fibra de poliéster, ilhós, miçangas, anzóis e tinta metálica compõem uma estrutura na qual a carne parece existir entre a organicidade e a construção. O título aproxima essa matéria corporal das regiões profundas do mar, evocando um corpo que adquire outras formas para permanecer. A suspensão e a presença dos elementos metálicos mantêm em tensão as ideias de vulnerabilidade, captura e transformação que percorrem a produção da artista. A relação entre transformação corporal e violência social adquire outra dimensão em Tornar-se mulher: nem todo naufrágio é o fim, mas o início de uma luta. A obra articula autorrepresentação, figurações animais, textos bordados e transparências produzidas pela sobreposição de tecidos. O corpo da artista aparece próximo ao urubu, animal frequentemente associado à morte e à repulsa, embora exerça uma função ecológica indispensável. Essa aproximação reposiciona aquilo que costuma ser percebido como indesejável, reconhecendo sua potência e sua participação na continuidade da vida. O trabalho também inscreve de forma direta a violência dirigida às pessoas trans no contexto brasileiro. Um livro com a bandeira nacional apresenta a palavra “transfeminicídio” no lugar da expressão “ordem e progresso”, vinculando a experiência individual da artista a uma realidade social mais ampla. O naufrágio deixa de operar exclusivamente como metáfora de transformação simbólica e se aproxima da possibilidade concreta de destruição do corpo. Tornar-se mulher ocorre, nesse contexto, em meio a estruturas que ameaçam a existência e delimitam formas de participação social. A transformação adquire, por isso, um sentido político: continuar existindo constitui uma forma de luta. As pinturas Dossel e Seleção natural assinalam um novo momento na trajetória de Naomi. Durante seu processo de transição de gênero, a artista afastou-se da pintura tradicional e encontrou no bordado e nas técnicas têxteis outros modos de elaborar o corpo. Seu retorno ao óleo incorpora a iconografia desenvolvida ao longo desse percurso. Peixes, anzóis, ramificações, pérolas e corpos costurados migram para a superfície pictórica. Esse movimento ultrapassa a recuperação de uma linguagem anterior. A pintura reaparece modificada pela experiência do bordado e pela compreensão do corpo como estrutura construída por camadas. O retorno à tela configura uma reconciliação técnica e pessoal, atravessada pelas transformações vividas pela artista. A exposição em Lisboa acrescenta a essas pesquisas uma dimensão de deslocamento. As obras deixam o território em que foram produzidas e passam a ser observadas em outro contexto cultural. Para Mariana, essa circulação amplia o campo de interlocução de sua pintura e permite acompanhar a maneira como suas imagens são percebidas por diferentes públicos. Para Naomi, o deslocamento participa também de um processo de reparação e de enfrentamento de bloqueios ligados à própria trajetória. Ao atravessarem o oceano, essas obras transportam paisagens, memórias e experiências corporais produzidas no Brasil. Chegam transformadas pelas condições da viagem, pela montagem e pelas relações que estabelecerão no novo espaço. Como os corpos representados pelas artistas, permanecem em movimento. Entre a superfície e o abismo, apresenta-se a possibilidade de continuar existindo depois da mudança, conservando as marcas do percurso e produzindo, a partir delas, outras formas de presença.

Autor e curador da exposição — Leonardo Augusto

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